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3,3 TWh. Esse foi o curtailment do Brasil em janeiro de 2026. Para dimensionar: é mais do que Itaipu gera em 10 dias. Em janeiro de 2025, o curtailment havia sido 1,01 TWh. Em janeiro de 2026, foi 3,3 TWh — um aumento de 224% com apenas 8,1% a mais de capacidade instalada.

Não estamos mais falando de ineficiência. Estamos falando de um sistema que atingiu seus limites físicos.

Curtailment mensal 2023-2026 com janeiro/2026 destacado
Curtailment mensal 2023-2026 com janeiro/2026 destacado

Os Números que Assustam

Janeiro de 2026 quebrou todos os recordes absolutos. Foram 1.530 usinas afetadas — praticamente toda usina eólica e solar do NE sofreu corte em algum momento do mês. São 212 conjuntos restringidos, correspondendo a 83% de todos os existentes. O curtailment eólico (2,5 TWh) foi três vezes maior que o solar (0,78 TWh), mas a segunda frente solar — liderada por Minas Gerais — acelerou: o curtailment solar de MG em 2025 atingiu 3,4 TWh, 17% do total nacional.

Curtailment diário: janeiro/2026
Curtailment diário: janeiro/2026

E fevereiro provou que o problema é estrutural, não meteorológico: quando o vento parou, o curtailment caiu para 0,64 TWh em 17 dias — mas o CMO NE disparou para R$ 4.871/MWh, recorde histórico absoluto em todos os quatro subsistemas simultaneamente. O SIN precisa da energia renovável que está jogando fora. O problema não é excesso — é entrega.

A Grande Inversão: CNF Superou ENE

Historicamente, o curtailment brasileiro era dominado por ENE (excesso de energia) — 55% do total. CNF (confiabilidade elétrica) ficava em torno de 32%. Em janeiro de 2026, o jogo virou: CNF chegou a 44,2% (1.447 GWh), ENE caiu para 32,4% (1.062 GWh), e REL saltou para 23,4% (765 GWh).

O que isso significa? CNF é o corte que o ONS faz para manter a estabilidade da rede — não porque sobra energia, mas porque a rede não aguenta. No entanto, como demonstrado pela análise detalhada dos padrões de classificação, CNF e ENE não são diagnósticos de rede: são heurísticas temporais. À noite, 99% do curtailment é classificado como CNF. De dia, 80-94% vira ENE. O cruzamento ocorre às 11h BRT.

Em fevereiro, com a geração NE em colapso meteorológico (-97% versus janeiro), o CNF desapareceu: caiu para 32 GWh (de 1.127 GWh). A ENE reassumiu a dominância (69%). Isso confirma que CNF só ativa quando há alta geração saturando a rede — a classificação reflete o horário, não as condições físicas da transmissão.

Top 10 piores dias de curtailment: perfil e condições
Top 10 piores dias de curtailment: perfil e condições

A Narrativa Perigosa: Falta de Demanda

Diante do curtailment explosivo de janeiro de 2026, surgiu uma narrativa confortável: "o Nordeste tem energia demais porque falta demanda." A prescrição decorre naturalmente: data centers, eletrificação industrial, hidrogênio verde — aumentar a demanda resolve o problema.

Os dados contam outra história.

A demanda do Nordeste cresceu 19% desde 2022 — de 11.171 MW médios para 13.267 MW em 2025. São 2.096 MW a mais de carga, equivalente a uma cidade como Fortaleza inteira. O problema é que a geração renovável cresceu 3,5 vezes mais rápido: de 9.353 MW para 15.531 MW no mesmo período, um aumento de 66%.

O resultado: a carga líquida do NE, que era positiva em +1.818 MW em 2022, tornou-se negativa em -2.264 MW em 2025. O Nordeste gera mais do que consome durante 18 das 24 horas do dia, com pico de excesso de -4.945 MW às 7h BRT.

Anatomia do pior dia: 13/jan/2026
Anatomia do pior dia: 13/jan/2026

A tese das térmicas inflexíveis também não se sustenta. A geração térmica inflexível média no NE em 2025 foi de 0 a 3 MW. Nos meses de pico (outubro e novembro), a média subiu para 49-58 MW — insignificante frente a 13.000+ MW de carga. Térmica inflexível não é fator.

O Verdadeiro Gargalo

Se não é falta de demanda, o que explica 3,3 TWh desperdiçados em um único mês?

Transmissão.

O contrafactual é direto: com 8 GW de capacidade NE→SE (atual efetivo), 54,6% do curtailment seria evitado. Com 10 GW, 72,5%. Com 13 GW (Bipolo I), 87,0%. Com 21 GW (Bipolo I + II), 99,0%. O residual de gargalos locais representa apenas 1% do total.

A distinção importa porque orienta investimentos radicalmente diferentes. Se o problema fosse demanda, data centers e eletrificação seriam a solução: investimento de R$ 50-200 bilhões, prazo de 5-15 anos. Se o problema é transmissão — e é — a expansão do corredor NE→SE e o Bipolo II são a solução: R$ 26,5 bilhões, prazo de 5-7 anos.

Data centers ajudam: a modelagem mostra que 300 MW do mega data center da ByteDance no Ceará absorvem ~1,9 TWh/ano de curtailment (5,9% do NE). Mas sem a transmissão, data centers saturam em 2-3 GW de carga e eliminam apenas 35,5% do curtailment. Transmissão é pré-requisito. Demanda é complemento.

Distribuição dos piores dias por mês
Distribuição dos piores dias por mês

O Pós-Apagão Não Mudou a Capacidade

Outra narrativa testada: "após o apagão de agosto/2023, o ONS reduziu permanentemente o limite NE→SE de 13 para 5 GW." Os dados refutam isso. Pré-apagão (Jan-Ago/2023), o fluxo máximo foi de 6.914 MW, P99 de 6.411 MW. Pós-apagão (Set-Dez/2023), o P99 caiu temporariamente para 5.594 MW. No H2/2024, o P99 recuperou para 7.664 MW, superando o nível pré-apagão.

A queda pós-apagão foi temporária. A capacidade se recuperou e superou o nível anterior. O gargalo não é conservadorismo operacional — é saturação estrutural de uma rede que não acompanhou o crescimento renovável.

Janeiro de 2026 destruiu definitivamente a narrativa do gargalo temporário: o HVDC CPV-ARA2 operou com 0% de indisponibilidade no mês — e mesmo assim o curtailment bateu o recorde histórico absoluto.

O Brasil desperdiça energia renovável enquanto a demanda cresce, as redes ficam saturadas e os modelos de despacho ignoram o fenômeno. A solução não é inventar demanda que já existe — é construir o fio que faz a energia chegar onde ela é necessária.

recorde janeiro 2026 demanda NE