O Brasil tem um problema de R$ 10 bilhões que quase ninguém discute.
Entre outubro de 2023 e fevereiro de 2026, o sistema elétrico brasileiro desperdiçou 54,5 TWh de energia renovável — eólica e solar que estava pronta para ser gerada, mas foi impedida de entrar no sistema. Isso equivale a toda a energia que o estado do Rio de Janeiro consome em um ano.
O número impressiona, mas é conservador. Ele vem de dados públicos do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), cruzados semi-hora a semi-hora com o custo marginal de operação do sistema. São mais de 60 milhões de registros analisados.
A escala do desperdício
Para dimensionar: 54,5 TWh é mais do que a parcela brasileira da geração de Itaipu em 2024. É quase o dobro da geração de Belo Monte em um ano típico (~31 TWh).
Quando convertemos essa energia em valor econômico — multiplicando o curtailment de cada meia-hora pelo Custo Marginal de Operação (CMO) do Sudeste no mesmo instante — chegamos a R$ 11,8 bilhões para todo o Brasil.
Somente o Nordeste responde por 87% desse desperdício: 47,45 TWh cortados, equivalentes a R$ 10,2 bilhões.

O gráfico mostra a curva acumulada do prejuízo. Note que ela não cresce de forma linear: a partir de meados de 2025, a inclinação dispara. O crescimento acelerou porque o sistema entrou na parte exponencial da curva — cada MW adicional de capacidade renovável instalada gera curtailment desproporcional quando o gargalo de transmissão está saturado.
Por que isso acontece?
O curtailment — ou "constrained-off", no jargão técnico — é a restrição imposta pelo operador do sistema a geradores renováveis. Em vez de gerar toda a energia que o vento ou sol permitem, a usina recebe uma ordem para limitar sua produção.
As razões se dividem em três categorias:
| Razão | TWh | % do total NE |
|---|---|---|
| ENE — Energética (excesso de geração) | 21,5 | 45% |
| CNF — Confiabilidade (segurança elétrica) | 20,4 | 43% |
| REL — Rede (indisponibilidade de transmissão) | 5,6 | 12% |
A razão energética (ENE) significa que há mais energia do que o sistema consegue absorver. A de confiabilidade (CNF) significa que o operador precisa manter geradores síncronos ligados para garantir estabilidade da rede — e para isso precisa reduzir as fontes não-síncronas. A de rede (REL) significa que uma linha de transmissão está indisponível.
A relação com o preço da energia
O desperdício e o preço da energia no Sudeste andam juntos — mas não da forma que você imagina.

Quando o curtailment é alto no Nordeste, o CMO tende a ser baixo (porque há excesso de energia). Mas quando o período seco chega e o curtailment cai momentaneamente, o CMO dispara — e o sistema inteiro paga caro pela energia que não consegue escoar quando precisa.
A correlação de Spearman entre curtailment mensal e CMO SE é de 0,387 — positiva e significativa. Parece contra-intuitivo: mais curtailment deveria significar energia sobrando e preço baixo. Mas o que acontece é que ambos são altos durante o período seco, quando o vento sopra forte no Nordeste e as hidrelétricas do Sudeste geram menos.

O gargalo invisível
A energia desperdiçada no Nordeste não fica parada lá por acaso. Ela precisaria viajar até o Sudeste e Sul, onde está a maior demanda do país. Mas há um limite físico nesse caminho.

O fluxo entre NE e SE nunca ultrapassou 8,3 GW no período analisado. Para contexto: o corredor de transmissão que liga os dois subsistemas tem capacidade nominal de 26 GW em 11 linhas de 500 kV. Mas o máximo observado é 32% desse valor.
O histograma do fluxo mostra claramente: a maior parte do tempo o intercâmbio se concentra entre 3 e 6 GW. Os eventos acima de 7 GW são raros. Há algo limitando o corredor muito abaixo de sua capacidade física — e esse "algo" tem uma história, que começa no dia 15 de agosto de 2023.

O que esses números significam
Cada MWh desperdiçado é energia limpa que poderia ter substituído geração térmica a gás ou carvão. Em termos ambientais, 54,5 TWh representam aproximadamente 30 milhões de toneladas de CO2 que poderiam ter sido evitadas — suficiente para abastecer 27 milhões de residências por um ano.
Em termos financeiros, os R$ 11,8 bilhões não saem do nada. Eles se materializam em:
- Preço mais alto para o consumidor — térmicas caras despacham quando renováveis são cortadas
- Ressarcimento parcial aos geradores — REL e (em discussão) CNF geram direito a compensação
- Investimento perdido — parques eólicos e solares com retorno comprometido
- Sinal errado para investidores — por que investir em renovável se 15-24% será desperdiçado?
A deterioração é acelerada. O crescimento de curtailment de 2023 a 2025 foi de 23 vezes em dois anos. Janeiro de 2026 bateu todos os recordes: 3,34 TWh em um único mês, com 1.543 usinas e 226 conjuntos afetados simultaneamente. Para comparação, janeiro de 2025 havia registrado 541 GWh. Em um ano, o mesmo mês cresceu +515%.
A capacidade instalada cresceu 8,1% nesse mesmo intervalo. Isso não é crescimento linear. É superlinear — consequência direta de um sistema que opera na parte exponencial da curva de saturação, onde cada MW adicional de capacidade causa curtailment desproporcional por competir pelo mesmo gargalo de transmissão.
Metodologia
- Fonte de dados: ONS (datasets públicos S3), CCEE
- Período: outubro/2023 a fevereiro/2026 (28 meses, ~60 milhões de registros)
- Fórmula:
curtailment = GREATEST(geração_referência − geração_real, 0) / 2por instante semi-horário, por usina - Valoração: curtailment (MWh) × CMO SE (R$/MWh) no mesmo instante
- Ferramenta: ClickHouse (OLAP), Python/Polars