Enquanto o mercado debate o vento no Nordeste, Minas Gerais construiu silenciosamente a segunda maior frente de curtailment do Brasil. Em 2025, o estado cortou 5,18 TWh de energia solar — um aumento de 469% em relação ao segundo semestre de 2024. Com 8,2 GW de capacidade instalada e 195 plantas no pipeline (77% mais que em junho de 2024), MG já responde por até 35% do curtailment total em meses favoráveis ao sol. E diferente do Nordeste eólico, os gargalos mineiros não estão no mapa regulatório.

A Segunda Frente que Ninguém Viu Chegar

A estrutura do curtailment brasileiro em 2025 revela três frentes independentes, não uma:

FrenteCurtailment 2025Participação
Eólica NE (BA+RN)43,5% do totalPredominante
Solar SE (MG+SP)22,6%Segunda frente
Solar NE (BA+PI+CE)13,3%Terceira frente

Em fevereiro de 2026, quando o vento do Nordeste colapsou — o curtailment eólico NE caiu de 2.520 GWh para 77 GWh em um único mês — MG solar manteve sua participação e até a ampliou, representando 26,1% do total nacional. Essa independência confirma o diagnóstico: MG solar não é satélite do NE eólico. É uma frente estrutural com dinâmica própria.

Crescimento curtailment MG solar 2024-2025
Crescimento curtailment MG solar 2024-2025

Os cinco conjuntos mais impactados em 2025 — todos no norte de MG — concentraram 2,4 TWh de curtailment:

ConjuntoCurtailment 2025Usinas
CJU_MGJAN (Janauba)1.205 GWh27
CJU_MGARN (Arinos)503 GWh25
CJU_MGVST1 (Vista Alegre)708 GWh18
CJU_MGSDC (São Domingos)442 GWh17
CJU_MGSDJ (Jaíba V)434 GWh13

Esses cinco conjuntos sozinhos superam o curtailment total de Piauí e Ceará juntos.

Três Gargalos, Três Lógicas

A decomposição por tipo de restrição revela que MG não tem um problema — tem três problemas independentes.

Gargalos transmissão MG identificados
Gargalos transmissão MG identificados

Gargalo 1: O backbone Itabira/Neves 500 kV. A contingência dupla das LTs 500 kV Itabira 5/Vespasiano 2 e Itabira 5/Neves 1 limita o carregamento da LT 230 kV Itabira 4/Itabira 5 — o backbone que evacua a geração solar do norte de MG para os centros de carga de Belo Horizonte e Vitória. No DESSEM, a restrição SLA4/BET/NEVE já opera a 34% da capacidade em dias fracos de irradiância. Em dias de forte sol, atinge 60% a 80%. No limite, sobe para 100%.

Esse gargalo não está no mesmo corredor do Nordeste. É um constraint puramente interno ao Sudeste, que o debate regulatório simplesmente ignora.

Gargalo 2: O corredor Janauba-Jaíba 230 kV. Cinco conjuntos no norte de MG — incluindo os três maiores do estado — evacuam por um corredor de 230 kV com capacidade física limitada. A restrição dos transformadores de Jaíba (T2_JAB + T3_JAB menor que 140 MW) é um gargalo latente que eclode em dias de forte irradiância. A LT 230 kV Janauba 3/Jaíba aparece nas restrições de rede de MG com 30 GWh de curtailment REL em 2025 — mas o efeito sistêmico do compensador Janauba 3 MG, offline desde outubro de 2025, soma 388 GWh mensais de curtailment adicional tanto em MG solar quanto no NE eólico.

Gargalo 3: Rio Novo do Sul e a competição com a hidro do Norte. O mesmo constraint que afeta o Nordeste eólico também constrange o sol mineiro. A SE Rio Novo do Sul 500/345 kV, em radialização desde 2023, impacta geração a 800 km de distância. E o FJUSC — o limite de fluxo Jurumirim-Sudeste que depende da potência transmitida pelos bipolos HVDC de Xingu/Estreito — cria uma competição direta entre o solar de MG e a hidroeletricidade de Belo Monte. Quando o corredor Norte-Sudeste está saturado escoando hidro, sobra menos espaço para o sol mineiro.

Mapa gargalos MG solar invisíveis
Mapa gargalos MG solar invisíveis

A Correlação que Confirma o Diagnóstico

O curtailment solar em MG tem correlação de r = 0,957 com a geração bruta — o desperdício cresce quase linearmente com a irradiância. Isso descarta a hipótese de problema puramente energético (excesso sistêmico): se fosse ENE puro, a correlação seria mais fraca e dependente de condições remotas. A correlação alta indica gargalos locais que se tornam vinculantes exatamente quando a geração é alta — comportamento clássico de restrição física de rede.

Restrição SLA4-BET impacto MG
Restrição SLA4-BET impacto MG

Nos dias de alta irradiância com gargalo Itabira ativo, a restrição opera a 63% do limite em dias fracos e alcança 100% nos dias de pico solar. O curtailment não é aleatório — é determinístico para qualquer agente com visibilidade da topologia.

O Vazio Regulatório

O Leilão de Transmissão de março de 2026 focou em compensadores síncronos para RN e CE (Lote 3, R$ 1,4 bilhão). Nenhum investimento de alívio está previsto para os gargalos de MG.

Curtailment NE vs SE por mês
Curtailment NE vs SE por mês

Enquanto toda a atenção regulatória e os investimentos em transmissão se concentram no Nordeste, MG desperdiçou R$ 1,3 bilhão em energia solar em 2025. Com 195 plantas no pipeline (crescimento de 77% em oito meses) e curtailment por planta crescendo 225% por ano, mesmo a frota existente vai desperdiçar progressivamente mais.

A projeção é clara: se MG solar mantiver a trajetória de 2025, o curtailment solar no estado chegará a 7 a 8 TWh em 2026 — equivalente à geração anual de Itaipu em dezoito dias. E isso sem nenhum novo investimento de transmissão planejado para a região.

O Que a Análise Indica

Três implicações emergem dos dados. Primeira: BESS em MG faz sentido econômico independente do problema de rede. O perfil horário é textbook — 90% do curtailment ocorre entre 10h e 17h BRT, com pico às 13h. Uma bateria de 4 horas capturaria praticamente todo o curtailment solar, com carga entre 10h e 14h e descarga no pico vespertino.

Segunda: a narrativa de que curtailment é "problema do Nordeste" está defasada. MG já supera individualmente o curtailment de sete dos onze estados atingidos. O leilão LRCAP de 2026 deveria considerar que o problema de armazenamento não é exclusivo do NE.

Terceira: o compensador de Janauba 3, previsto para retorno em 30 de abril de 2026, aliviará REL em ambos os subsistemas — reduzindo cerca de 388 GWh mensais no NE eólico e cerca de 30 GWh mensais no MG solar. É um alívio temporário, não uma solução estrutural. Os gargalos de Itabira e do corredor Janauba-Jaíba permanecerão sem investimentos planejados enquanto o pipeline solar de MG continua crescendo.

O setor elétrico brasileiro não tem um problema de curtailment. Tem três problemas de curtailment — e só está prestando atenção em um deles.

MG solar gargalo Itabira Janaúba